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"Seu" Moreira e seus sapatos apertados

Quem de nós não se lembra de alguma sapataria que costumávamos ir sempre que o velho par de sapatos deixava de ser um confortável amigo para ser motivo de vergonha pelas marcas do uso? Ainda que uma sapataria não cative a fidelidade do cliente como uma barbearia, por exemplo, a do bairro sempre nos arrasta pela comodidade.
Normalmente o vendedor daquelas antigas sapatarias masculinas era um sujeito atencioso, que não se incomodava de trazer caixas e mais caixas, procurando cercar o cliente de todas as opções disponíveis. Ajudava a calçar e aguardava calado a decisão do comprador.
"Seu" Moreira, um senhor dos "Seu"s 50 anos, representante de laboratório farmacêutico, morador do bairro e cliente antigo de uma dessas sapatarias, não dispensava a ajuda do vendedor ,pois tinha certa dificuldade para  se calçar, devido muito mais à barriga do que à própria idade.
Com a humildade de sempre, o vendedor se agachava e, com a ajuda de uma calçadeira, empurrava aquele pé gordo para dentro do sapato escolhido. Puxava o cadarço e dava o nó, enquanto "Seu" Moreira fazia cara de quem chupava um limão azedo. Ele, no entanto, jamais reclamava; pelo contrário, fazia questão de levar sapatos menores que "Seu" número, sabe-se lá o porquê. Comprava sempre o mesmo modelo. O vendedor, ainda que muito intrigado, não se julgava no direito de questionar a decisão do cliente.
O que fazia "Seu" Moreira comprar um sapato menor? Sua profissão lhe obrigava a fazer longas caminhadas, a visitar inúmeros consultórios médico, levando aquela pasta pesada, cheia de amostra.
Devia se um insuportável desconforto cada vez que "Seu"s pés tocavam as ruas e calçadas abrasadoras dos dias quentes do Rio de Janeiro. Como era possível alguém se infligir tão severa punição?
Um belo sábado à tarde, "Seu" Moreira apareceu muito bem disposto na sapataria. Nem parecia que tinha perdido a esposa havia poucos dias; pela primeira vez estava de fato alegre. Escolheu um novo modelo de sapatos, muito mais bonito e bem mais caro que o usual e, quando o vendedor lhe trouxe o número de sempre, "Seu" Moreira sorriu e disse: " Não, meu bom amigo; não uso mais este número. Traga um maior, por favor". O sapato lhe coube como uma. "Seu" Moreira dava passos felizes e sorria.
Antes de sair da loja, revelou ao vendedor seu segredo: "Amigo, sei que muitas vezes lhe intriguei, quando comprava um sapato de número menor que o meu, e me obrigava a andar com aquelas dores nos pés. É que sendo muito mal casado, tinha uma esposa que me infernizava a vida. Quando, no trabalho, lembrava-me que ao anoitecer teria de voltar para casa e suportá-la, consolava-me com o fato de que pelo menos em casa, poderia tirar os sapatos que tanto me atormentavam.
Agora, depois de muito sofrer, vejo-me livre de dois tormentos e, por isso, sinto-me tão feliz! Fiquei viúvo e, portanto, não preciso mais dos sapatos pequenos."
Como é preciosa a mulher discreta, cuja palavras são sábias, mas quão terrível é aquela que transforma a vida do marido em um verdadeiro infortúnio.
Amigo leitor, leio a Bíblia já por mais de 30 anos e o único versículo que encontrei, repetido, exatamente da mesma maneira em capítulos diferentes, fala sobre o assunto que estamos a tratar. Peço a você, meu caro amigo, que reflita comigo Provérbios 21.9 e Provérbios 25.24 dizem exatamente a mesma coisa: "Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa". Confira.


Bispo Marcelo Crivella



Fonte: edições antigas do Jornal Folha Universal